A FORMAÇÃO DO POVO BRASILEIRO
A antiga maneira de fazer a crítica literária fundada nas regras eternas do bom gosto, modificou-se de uma vês e foi obrigada a aceitar a realidade de seus conceitos.
Desde Buckle e Gervinus começou-se estudar a ação dos diferentes meios sobre os diversos povos; desde Taine e Renan, admitiu-se, além disso, o influxo divergente das raças nas criações religiosas e artísticas.
Antes destes escritores essa intuição era existente; eles a tornaram clássica e vulgar.
Começaram a aparecer estão os exageros, e os diletantes literários não tiraram mais da boca as palavras "meio e raça"!... Sobre a antiga retórica fundou-se outra com com seus termos místicos e sagrados. Improvisaram-se teorias sobre povos de formação recente, e, entre outros, Portugal, por exemplo, teve sua raça peculiar nos mosarabes e seu meio absolutamente distinto do resto das Espanhas pela vizinhança do mar, que não é , por certo, uma exceção portuguesa.
Entretanto, os fatos ai estão para impor-nos grande reserva: de um lado, a verdade inconclusa de que as velhas raças pré-históricas são quase desconhecidas e que as raças histórias, como a dos arianos, semitas e altaicos, desde a mais remota antiguidade, tem vivido no mais completo cruzamento e quase fundidas. O critério para a sua separação é quase puramente linguístico, e um critério bem fraco em etnografia, especialmente entre os povos modernos e recentes, resultante da fusão de muitas raças.
O povo brasileiro é um grupo étnico estremo e característico, ou é uma determinada formação histórica? Nem uma nem outra coisa, responde resolutamente.
Não é um grupo étnico definitivo; porque é um resultado pouco determinado de três raças diversas, que ainda acampam em parte separadas ao lado uma da outra.
Não é uma formação histórica, uma raça sociológica porque ainda não temos uma feição característica e original como, por exemplo, os ch8ineses ou os japoneses. Contudo, temos os elementos indispensáveis para tomar uma face étnica e a uma maior coesão histórica.
Quando se trata de caracterizar a nação brasileira, é claro que não dever ser no ar, fantasticamente, e sim em relação ao povo de que ela principalmente descende e e diante daqueles que a cercam. Sé o povo português não se distingue etnologicamente do espanhol, nós temos elementos para separar-nos consideravelmente do nosso ascendente europeu e dos povos vizinhos que nos cercam.
A raça ariana, reuniu-se aqui a duas outras totalmente diversas, contribuiu para a formação de uma sub-raça mestiça e crioula, distinta da europeia. A introdução do elemento negro não existente na maior parte das repúblicas espanholas, habilita-nos, por outro lado, a afastar-nos destas de um modo bem positivo.
As condições especiais de nossa geografia contribuíram para a formação do nosso povo. É uma circunstância "pré-história", por assim dizer, e de que não se tem medido todo o alcance, aparece para auxiliar a característica do povo brasileiro. A principal família indígena, que ocupava esta porção da América, não se confundia com qualquer outra. Os "brasilio-guaranis" povoavam justamente a maior porção desta parte do continente, onde se vieram estabelecer o negro e o português.
Este fato concorre para separar-nos ainda mais das gentes hispano-americanas que, além de não possuírem o elemento africano, tiveram um vasto cruzamento indígena do selvagem do Brasil. Por esta perspectiva, observa-se por si mesmo que toda a margem esquerda do Paraguai e do Paraná é genuinamente brasileira pela origem primitiva de seus habitantes, e seria hoje uma parte do Brasil, se o não tivesse obstado a fraqueza ou inépcia dos governos portugueses e imperial.
O povo brasileiro, como hoje se nos apresenta, se não constitui uma só raça compacta e distinta, tem elementos para acentuar-se com força e tomar um ascendente original nos tempos futuros. Talvez tenhamos ainda a oportunidade de representar na América um grande destino cultural histórico.
Dentro dos limite de uma só família humana, ramos vários podem oferecer tendências e aptidões diversas. Os franceses, italianos e alemães pertencem ao mesmo grupo ariano, e também diversidade entre eles de manifestações espirituais!... No Brasil s tendência de diferenciação pode ser ainda maior do que entre aqueles povos, se as circunstâncias anômalas e retardatárias não se vieram interpor ao nosso desenvolvimento.
As estatísticas mostram que o povo brasileiro compõe-se brancos arianos, índios tupis-guaranis, negros, quase todos do grupo bantú, e mestiços destas três raças, orçando os últimos certamente por mais da metade da população. O seu número tende a aumentar, ao passo que os índios puros tendem a diminuir. Desaparecerão num futuro talvez não muito remoto, consumidos na luta que lhes movem os outros ou desfigurados pelo cruzamento contínuo.
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